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O estopim da crônica

Toda terça, quinta e sábado, tinha crônica do Carlos Drummond de Andrade na última página do caderno de cultura. Minha mãe conta que eu acordava antes das seis e corria pro portão de ferro, onde o jornaleiro, de moto, lançava o Diário da Tarde, enroladinho. Eu tinha oito, nove, dez... quinze, dezesseis anos... e a minha primeira leitura era sempre a crônica do Drummond. O jornal tinha outros cronistas, claro, mas Drummond era o que mais me fascinava. Como conseguia escrever crônicas divertidas, surpreendentes, poéticas (às vezes as três coisas no mesmo texto) três vezes por semana? Como escrever mais...

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Memória: como assim?

Ter boa memória é lembrar todos os fatos e pessoas que estiveram presentes em algum momento da vida? Ter boa memória é alguém ser capaz de esquecer e guardar apenas o que, tendo sido vivido, foi significativo para ele? Ter boa memória é ser capaz de dizer de cor toda a tabela periódica de química, as fórmulas de física, as capitais africanas, os números primos e os diferentes empregos do “que”?

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Para nunca mais esquecer

Durante muitos e muitos anos, guardei comigo uma estranha recordação. Tão estranha que não comentava com ninguém, porque me parecia muito mais a lembrança imprecisa de um sonho do que qualquer outra coisa. E era assim: eu, muito pequeno, caminhava ao lado do meu pai, segurava com força a aba da camisa dele, com medo de me soltar e me perder, porque em cada uma das mãos ele levava uma bolsa com alguma coisa muito pesada. Andávamos por um tempo, já não sei se de dia ou de noite, se íamos por alguma rua movimentada. Mas recordo bem que subíamos...

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