Tag: Livros

Meu continente na ilha de Robinson: imagens fundadoras no texto de Daniel Defoe

Para Luiz Percival Leme Britto [...] estamos correndo o perigo de perder uma faculdade humana fundamental: a capacidade de pôr em foco visões de olhos fechados, de fazer brotar cores e formas de um alinhamento de caracteres alfabéticos negros sobre uma página branca, de pensar por imagens. Italo Calvino1 I. O naufrágio Foi como deve ser. Apertado junto ao peito, lido, relido, guardado, perdido. De pura inércia, meu pai pedindo que fosse ver os livros antes que ele os jogasse fora, e não fui. Hoje, amanhã, depois, aprendi com ele a adiar, deixar para depois o principal, muitas vezes. Era...

Continue lendo →

O novato

A sala de aula era governada pela bagunça. Sobre as carteiras, o material escolar e as mochilas, desordenados, aguardavam o silêncio e os inevitáveis trabalhos que viriam a preencher as horas daquela manhã de sol. Os alunos, ah! estes eram massa confusa de falas, risos, gritos e, de vez em quando, xingamentos e gestos rudes. Nada parecia durar para sempre. Ou melhor, tudo duraria até a chegada do novo professor. Ricardo, o mais destemido, já conseguira algumas informações sobre ele. Diziam que era severo. Diziam que era simpático. Diziam que era disciplinador. Ninguém da sala acreditou. Naquele território mandavam os...

Continue lendo →

O prazer que há na leitura literária

Quais imagens e palavras costumamos associar à leitura de literatura? Uma busca rápida na internet nos oferece um cardápio sem muitas variações. As imagens de pessoas deitadas em parques, gramados, na praia ou na rede são bastante frequentes, assim como imagens que nos remetem a voos e viagens. E ouvimos por aí, dentro e fora da escola, coladas nos discursos sobre a formação de leitores, as palavras: prazer, gosto, deleite, diversão, viagem. São imagens e expressões que nos fazem pensar na leitura, sobretudo literária, como uma espécie de entretenimento, ideia que tem sido sustentada e reforçada por muitas campanhas e...

Continue lendo →

Lendo Tonino Guerra

Tonino Guerra voltava para sua aldeia depois de velho. Mais de trinta anos a respirar o ar de Roma e então, um dia, como na infância antes da guerra, as montanhas, o canavial, o rio, o mel das abelhas selvagens. Conhecia de menino o vale do Marecchia e com alma de menino foi arrepanhando suas histórias. A vida, sendo simples, levava a imaginar. Um copo com água de chuva e a alma do menino sente o gosto dos relâmpagos.

Continue lendo →

Livro: coisa de pegar, mexer, fuçar

Sempre tive mãos vorazes. Gulosas. Curiosas. Gosto de tocar nos objetos, sentir as texturas, os materiais, o calor ou frio das coisas. Me dá muita aflição entrar numa loja cheia de placas do tipo "favor não encostar" ou "não mexer nos artigos expostos". Não esqueço uma vez que entrei numa loja de instrumentos musicais e deparei com a inacreditável placa "proibido tocar". Nas livrarias, detesto esses livros que vêm plastificados e não deixam a gente dar uma mísera folheada. Até entendo uma livraria virtual que vende os livros lacrados, "imexíveis" (como dizia, nos anos 90, um ministro do governo Collor)....

Continue lendo →