Tag: literatura

Primeiras vezes

Meu primeiro Drummond foi o Drummond político, de flor e estrela rubras, fora do colégio. Agora lembrando disso, revejo os Drummonds que havia em casa e me dou conta de que eram os menos afamados, os mais íntimos: poeta que falava de orgasmos, poeta que se despedia. Meu primeiro Baudelaire, também fora do colégio, foi o poema “A carniça”, bem naquela época da adolescência em que o repugnante e o terrível são coisas que fascinam. O primeiro Camões lírico, igual ao de muita gente, foi o do fogo que arde sem se ver. Nos tempos de faculdade, quis uma professora...

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Espelho, espelho mau…

Conheci recentemente a pesquisa da professora Regina Dalcastagnè, da UnB, dedicada a estudar e classificar os modelos sociais construídos pela literatura brasileira contemporânea. Ler os resultados da pesquisa foi como olhar para um espelho... mas, ao mesmo tempo, para uma lente côncava, que nos mostra tudo invertido. Por um lado, eu me senti o retrato cuspido e escarrado do típico escritor brasileiro. Afinal, como relata a professora Regina, 72,7% dos escritores são homens, 93,9% são brancos, 78,8% possuem ensino superior, 36,4% são jornalistas (a profissão mais presente). Sou um clichê ambulante, concluí. Carrego todas as características listadas acima. Para piorar,...

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Consultório editorial (1)

Minha mesa de trabalho é a oficina do Ão, do Cujo, do Sem Nome. Papéis de todos os formatos, em blocos ou avulsos. Textos fotocopiados e encadernados com capas de muitas cores, espirais, grampos e prendedores. Livros impressos – alguns bem mal-impressos – de diferentes espessuras, de formatos os mais estapafúrdios – muito grandes, diminutos, redondos, com ou sem vazados, em tecido e plástico... Por dentro, ilustrações que vão do desenho medíocre ao regular, do figurativo ao geométrico, de Da Vinci a Romero Britto. Enfim, a mixórdia habitual da mesa de um editor de literatura para crianças. Esqueci de incluir...

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Franz e Georges ou dois grãos de milho

Há um lugar na literatura em que os grandes viram grãos de milho. Aqueles altos sobrenomes de lombada dão lugar à miúda letra manuscrita. É quando Kafka escreve para o pai e se torna Franz, o filho de Hermann. É quando Simenon escreve para a mãe e se torna Georges, o filho de Henriette. Um pai e uma mãe, diz Simenon, “são dois indivíduos cujos gestos, cujas palavras, cujos olhares são julgados impiedosamente”: há na casa uma criança que os observa. Kafka é essa criança impiedosa quando escreve para o pai. Já um homem, mas um verme aos pés do...

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O pulo da manga e a carta do gato

"Estou escrevendo um livro e não sei como publicar." Já perdi a conta de quantas vezes escutei isso nos últimos vinte anos. São pessoas que desejam o caminho das pedras, o pulo do gato, a carta na manga e imaginam que eu já dominei todos esses clichês, pois estou envolvido no mundo editorial há bastante tempo. Curiosamente, a maioria das pessoas que me faz a tal pergunta deseja publicar obras em áreas sobre as quais eu não entendo patavina: um guia sobre educação financeira para crianças, um livro sobre como organizar as gavetas e prateleiras, um manual de costura inspirado...

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Até aqui, tudo bem!

Na mesa do meu escritório, de onde avisto os prédios do bairro de classe média alta de Higienópolis, do outro lado da Avenida Pacaembu, em São Paulo, há um porta-retrato. Nele, uma fotografia embaçada registra uma estranha composição: em primeiro plano um menino, trajando uma curta blusa de flanela, um desajeitado short e um sujo par de chinelos de dedo, tristes e assustados olhos semifechados. Pousadas em seus ombros magros, duas mãos femininas; ao lado, parte de uma perna de calça e uma barriga, que se adivinha em breve proeminente, indica a existência de um homem (marido das mãos femininas,...

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Fazendo a(de) conta

Em tempos idos de meu magistério em Letras, sempre me causou espécie a justificativa de alguns alunos para a escolha do curso: “É porque detesto matemática!”. Esquecendo a modéstia, devo confessar que sempre fui excelente aluna em números, equações e pensamento lógico. Mas a paixão pela literatura arrastou-me às letras. Ainda sou boa em cálculos. Sei fazer contas de cabeça (atualmente, essa qualidade é um espanto!), sei calcular porcentagem sem calculadoras e brincar de regra de três. Consigo com facilidade ler gráficos e interpretar estatísticas. Curiosíssima, sempre estou à procura de informações e notícias sobre descobertas científicas. A tecnologia me...

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Nove, nove, onze

Tinha plena consciência de que estava vivendo seus últimos dias. A doença que o consumia se recusava a sujeitar-se a qualquer tipo de tratamento. Ele não lamentava nem sofria por isso. Racional até a raiz dos poucos cabelos que lhe restavam, um espírito forjado pelos golpes duríssimos do malho da existência, aguardava com estoica paciência o evento inevitável. Já se desfizera de sua rica biblioteca, acumulada ao longo de mais de meio século. Inútil agora, tinha sido transportada em numerosos caixotes, doada à universidade local. Só conservava em casa, por um sentimento de orgulho que ele mesmo considerava pueril, quase...

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O Mário de Andrade dos meus dezesseis anos

Quando Manuel Bandeira leu o primeiro livro de poemas de Mário de Andrade (publicado há exatamente um século), não teve dúvidas: era um livro ruim. Mas esse ruim não era – digamos – um ruim consabido, evidente, definitivo. Era diferente. Era um “ruim estranho”. Foi aí que Bandeira farejou qualquer coisa a mais que não deixava o tal mau livro passar em branco. Eu era menina quando abri o livrão da poesia completa de Mário, ainda sem saber que a capa de arlequim estava lá para lembrar a primeira edição de Pauliceia desvairada. Livrão da biblioteca da mãe cheio de...

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Meu continente na ilha de Robinson: imagens fundadoras no texto de Daniel Defoe

Para Luiz Percival Leme Britto [...] estamos correndo o perigo de perder uma faculdade humana fundamental: a capacidade de pôr em foco visões de olhos fechados, de fazer brotar cores e formas de um alinhamento de caracteres alfabéticos negros sobre uma página branca, de pensar por imagens. Italo Calvino1 I. O naufrágio Foi como deve ser. Apertado junto ao peito, lido, relido, guardado, perdido. De pura inércia, meu pai pedindo que fosse ver os livros antes que ele os jogasse fora, e não fui. Hoje, amanhã, depois, aprendi com ele a adiar, deixar para depois o principal, muitas vezes. Era...

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